Acabou o amor: o ‘romance’ entre Bolsonaro e Bebianno do início ao fim

“Hoje posso dizer que sou, de forma hétero, apaixonado por Jair Bolsonaro”. A paixão avassaladora de Gustavo Bebianno e Jair Bolsonaro resultou numa união tão meteórica quanto a aproximação. As juras de amor que começaram com flertes viraram namoro, casamento e, agora, o divórcio ganha as redes sociais com revelações sobre os bastidores do governo.

Bebianno declarou-se a Bolsonaro no lançamento do então deputado à disputa pela presidência, em 22 de julho de 2018. O evento simbolizava uma grande vitória política do outsider, que conseguiu arrancar a candidatura do nanico Patriota e levá-la ao PSL de Luciano Bivar. Sete meses depois, o agora ex-secretário-Geral da Presidência sai do governo acusado de mentir e cometer “desonestidade e falta de caráter” pelo presidente que ajudou a eleger.

Naquela ocasião, com Carlos, Eduardo, Jair e Onyx Lorenzoni à mesa, Bebianno homenageou Bolsonaro por sua “coragem e bravura”, definindo-o como um “herói nacional”. No discurso de seis minutos, ele critica a ex-presidente Dilma Rousseff e a “esquerdalha” e conta que, até a aliança com o capitão, sentia-se impotente ao ver os rumos que o Brasil tomava após o impeachment.

“Três anos depois, o destino quis que nossos caminhos se cruzassem e eu pudesse contribuir, de alguma forma, nessa jornada que o nosso capitão, essa cruz que o nosso capitão carrega há 30 anos”, orgulha-se, emocionado. “Na convivência de dia a dia, minha admiração só se fez aumentar. Hoje posso dizer que sou, de forma hétero, apaixonado por Jair Bolsonaro. Jair Bolsonaro não prega correção. Ele é o próprio exemplo de correção”, disse.

Alçado à posição de presidente interino do partido, Bebianno agradece a Bivar e comemora a parceria com Bolsonaro. Ele diz que poucas pessoas conhecem, “principalmente a imprensa”, o coração do capitão, enaltecendo sua “capacidade de enfrentar desafios e sua resiliência”.

“Há mais ou menos um ano atrás, sequer partido nós tínhamos. E hoje, é com muita emoção que a gente está aqui nessa festa maravilhosa, nesse ambiente tão caloroso (….). Então aqui fica o meu abraço, meu agradecimento a todos vocês, principalmente a Luciano Bivar, que nos abriu as portas do PSL. Sem o PSL, nós não chegaremos lá. Sem o PSL, nós não estaríamos aqui”, diz. E prevê: “Eu acredito que, muito em breve, o Brasil vai, de forma mais ampla, enxergar quem é Jair Bolsonaro”.

No mesmo evento, Bolsonaro discursou por cerca de uma hora. Ele citou Bebianno como um dos membros do seu “exército” que estava se formando. “Eles têm defeitos? Têm. Eu duvido que sejam maiores que os meus. É o nosso exército, que foi sendo montado. Depois, [veio] Gustavo Bebianno”, disse, segundo o extra.

O ex-ministro e presidente do partido foi peça fundamental durante toda a campanha. No lançamento de uma plataforma de financiamento coletivo, definiu Bolsonaro como “um Davi que luta contra vários Golias”. Em convenções estaduais, esteve ao lado de Bolsonaro e Magno Malta, à época cogitado como “vice dos sonhos” de Bolsonaro e hoje sem cargo no governo.

Mesmo após a exoneração, Bebianno ainda se declara um “soldado leal”, que “sempre esteve ao lado do presidente”. O tom, porém, é agora um pouco mais crítico.

“Jair Bolsonaro tem meu respeito, meu afeto, tem meu amor, porque não dizer? Mas, como ser humano normal, ele não é perfeito, comete deslizes aqui e ali”, disse, revoltando-se contra Carlos: “Minha indignação é ter servido como soldado disposto a matar e morrer e no fim da linha ser crucificado e tachado de mentiroso, porque Carlos Bolsonaro fez macumba psicológica na cabeça do pai.”

A relação começou a azedar após Bebianno ser citado em denúncias publicadas pelo jornal Folha de São Paulo sobre repasse de verbas do PSL, oriundas de dinheiro público, a candidata suspeita de ser laranja em Pernambuco. Ele era, à época, presidente nacional interino do partido. Durante a campanha, Bivar deixou o posto e passou a comandar a executiva pernambucana.

Ao GLOBO, Bebianno negou os rumores de crise dizendo que, no dia anterior, havia conversado três vezes por WhatsApp com o presidente. Foi chamado de mentiroso por Carlos Bolsonaro, que divulgou um áudio do pai se recusando a falar com o ministro. O presidente endossou a acusação do filho.

O fim do casamento veio com tudo que tinha direito: a revelação das conversas e até a troca de avatar no Instagram. Um dia após Bebianno ser demitido, a Revista VEJA divulgou áudios que comprovam que Bebianno de fato falou com Bolsonaro três vezes naquele dia. O ex-ministro trancou o Instagram e a imagem com Bolsonaro foi substituída por uma com uma metralhadora. No Twitter, porém, Bebianno manteve a foto de capa ao lado do capitão.

Nos áudios, Bolsonaro e Bebianno divergem se falar pelo WhatsApp é ou não conversar. Ele também acusa o ex-ministro de ter plantado uma nota na imprensa sobre a tentativa frustrada de Bebianno conversar com o presidente sobre o caso das candidatas laranjas. E diz que Bebianno tentou envolvê-lo na história para se salvar:

“Querer empurrar essa batata quente desse dinheiro lá pra candidata em Pernambuco pro meu colo, aí não vai dar certo. Aí é desonestidade e falta de caráter”, acusa.

Bebianno, então, explica seu papel na presidência interina no partido, alega inocência e diz que quem deve explicações é Bivar.

“A minha tarefa como presidente interino nacional foi cuidar da sua campanha. A prestação de contas que me competia foi aprovada com louvor. Cada chapa foi montada pela sua estadual. No caso de Pernambuco, pelo Bivar, logicamente. Se o Bivar escolheu candidata laranja, é um problema dele, político. E é um problema legal dela explicar o que ela fez com o dinheiro. A minha consciência está tranquila, o meu papel foi limpo, continua sendo. O Luciano Bivar que é responsável lá pela chapa dele. Abraço, capitão”.

Há pouco mais de um ano, Bolsonaro concedeu coletiva ao lado de Bivar, com Bebianno assistindo em segundo plano. Logo no início, ele explicou como o PSL o conquistou e por que decidiu filiar-se ao partido. Segundo o presidente, uma das condições atendidas pelo PSL para o “casamento” que não vingou com o Patriota foi a de “saber de tudo o que está acontecendo no partido”.

“O Bivar está num partido pequeno. Dificilmente o Bivar sozinho sobreviveria à cláusula de barreira. Eu sem partido também não seria candidato. Então, estamos fazendo um casamento. Igual quando você vai casar com a dona Maria, você ganha e perde também. Nós aqui estamos sabendo tudo que está acontecendo no partido, os segredos, se é que existe algum segredo, serão abertos, e vamos trabalhar juntos”

Ao exonerar Bebianno, Bolsonaro atribuiu a decisão a uma “reavaliação” motivada por “diferentes pontos de vista sobre questões relevantes”. Ele agradeceu pela “dedicação e comprometimento de Bebianno à frente da campanha, considerado “importante para o êxito”.

“Avalio que pode ter havido incompreensões e questões mal entendidas de parte a parte, não sendo adequado pré-julgamento de qualquer natureza. Agradeço ao senhor Gustavo pelo esforço e empenho quando exerceu a direção nacional do PSL e continuo acreditando na sua seriedade e qualidade do seu trabalho. Reconheço também sua dedicação e esforço durante o período que esteve no governo”, elogiou.

20/02/2019